A Cosan (CSAN3) avançou na redução do endividamento e na reorganização de sua estrutura corporativa no segundo trimestre de 2026. A companhia diminuiu a dívida líquida, melhorou o perfil de vencimentos e iniciou um processo de desinvestimentos para fortalecer o caixa.
A administração também apresentou uma projeção para o índice de cobertura do serviço da dívida. A expectativa é que o indicador fique entre 0,8 e 1,2 vez no fim de 2026, ante 0,2 vez ao final do segundo trimestre.
O resultado deve refletir a venda de ativos, o recebimento de dividendos das empresas investidas e a redução das despesas financeiras após as iniciativas de gestão de passivos.
Resultado operacional
A Cosan registrou geração operacional de caixa medida pelo EBITDA ajustado gerencial de R$ 3,99 bilhões no segundo trimestre. O valor representa queda de 4% na comparação anual e ficou 3% abaixo da estimativa do Safra.
A retração ocorreu principalmente por causa do desempenho mais fraco da Radar e da Moove. Os resultados da Rumo (RAIL3) permaneceram estáveis, enquanto a Compass apresentou crescimento de 5%.
A diferença em relação às projeções veio sobretudo da Radar e da Compass, que tiveram resultados abaixo do esperado. O desempenho foi parcialmente compensado pelo resultado mais forte da Moove. A Rumo ficou próxima da estimativa.
A companhia registrou prejuízo líquido de R$ 320 milhões, ante lucro estimado de R$ 310 milhões e prejuízo de R$ 946 milhões no segundo trimestre de 2025.
Apesar do resultado negativo, houve melhora na comparação anual. O desempenho foi favorecido pela ausência do impacto negativo da equivalência patrimonial da Raízen (RAIZ4), pelo melhor resultado financeiro, pelo reconhecimento de créditos tributários e pela redução das despesas corporativas.
Por outro lado, a Cosan reconheceu uma perda contábil de R$ 233 milhões relacionada ao Porto São Luís.
Geração de caixa
A Cosan consumiu R$ 446 milhões em caixa no segundo trimestre, uma melhora expressiva em relação ao consumo de R$ 8,25 bilhões registrado no primeiro trimestre de 2026.
As principais entradas de recursos foram:
- R$ 2,43 bilhões provenientes de desinvestimentos, principalmente relacionados à oferta pública inicial da Compass;
- R$ 399 milhões em dividendos e juros sobre capital próprio;
- R$ 255 milhões em receitas financeiras.
Esses recursos foram mais do que compensados por:
- R$ 2,62 bilhões em amortizações de dívida;
- R$ 481 milhões em juros e outras despesas financeiras;
- R$ 296 milhões em distribuições aos acionistas preferenciais.
Dívida em queda
A dívida líquida expandida da Cosan caiu R$ 2,25 bilhões em relação ao trimestre anterior, para R$ 9,22 bilhões.
A dívida bruta expandida recuou de R$ 19,19 bilhões para R$ 16,49 bilhões. O caixa e seus equivalentes somaram R$ 7,27 bilhões, ante R$ 7,71 bilhões no primeiro trimestre.
A redução do endividamento refletiu principalmente os recursos obtidos com a oferta pública inicial da Compass. Além disso, os pré-pagamentos realizados pela companhia contribuíram para melhorar o calendário de vencimentos.
Mesmo assim, o índice de cobertura do serviço da dívida caiu de 0,4 para 0,2 vez na comparação trimestral. O recuo ocorreu devido à redução dos dividendos recebidos nos últimos 12 meses e à permanência das despesas financeiras em patamar elevado.
A companhia espera reverter esse movimento até o fim de 2026. Para isso, conta com o recebimento programado de dividendos das empresas do portfólio, incluindo recursos relacionados à venda de parte das terras da Radar, além da redução dos custos financeiros.
Desempenho da Compass
A Compass registrou geração operacional de caixa de R$ 1,28 bilhão no segundo trimestre, alta de 5% na comparação anual. O resultado, porém, ficou 9% abaixo da estimativa do Safra.
O volume de gás distribuído caiu 1% em relação ao mesmo período do ano anterior. A queda foi provocada pela menor demanda industrial, principalmente nos setores químico, siderúrgico e cerâmico.
O desempenho foi parcialmente compensado pelo melhor mix de clientes residenciais e comerciais.
A geração operacional de caixa da distribuição de gás cresceu 6%. Já a área de Marketing e Serviços avançou 50%, apoiada pela otimização de novos volumes de suprimento.
O aumento das despesas corporativas, no entanto, pressionou o resultado consolidado.
Moove mantém margens
A Moove vendeu 153 mil metros cúbicos no trimestre, alta de 6% na comparação anual. A geração operacional de caixa ajustada ficou em R$ 475 milhões, queda de 6%.
Apesar da retração, o resultado superou a estimativa de R$ 326 milhões do Safra.
A comparação anual foi afetada por uma base mais forte. No segundo trimestre de 2025, a companhia havia reconhecido perdas e indenizações de seguros relacionadas ao incêndio na planta do Rio de Janeiro.
Ainda assim, a gestão de receitas e a otimização dos estoques ajudaram a sustentar a margem operacional em 17%, mesmo em um cenário de restrições de oferta no setor.
A alavancagem da Moove encerrou o trimestre em 1,4 vez, ante 1,9 vez no mesmo período do ano anterior.
Radar sofre impacto contábil
A Radar registrou resultado operacional negativo de R$ 29 milhões, ante resultado positivo de R$ 134 milhões no segundo trimestre de 2025 e estimativa de R$ 108 milhões.
O desempenho foi afetado pela reavaliação de propriedades agrícolas associadas à venda anunciada do portfólio. A queda das receitas de arrendamento, após a redução dos preços de terras agrícolas, também pressionou o resultado.
O portfólio de terras da Radar foi avaliado em R$ 18,1 bilhões ao fim do trimestre. Desse total, R$ 5,6 bilhões correspondem à participação consolidada da Cosan.
Simplificação da estrutura
A Cosan propôs a cisão total e a posterior dissolução da Radar. A operação prevê a transferência proporcional de ativos e passivos para a Cosan e a Mansilla.
Com isso, a companhia pretende eliminar uma holding intermediária, reduzir custos e simplificar a estrutura corporativa. A expectativa é de que a transação não provoque diluição nem impacto financeiro relevante para os acionistas da Cosan.
A mudança ocorre em paralelo à reorganização da administração. Rafael Bergman renunciou ao cargo de diretor financeiro, enquanto Maria Rita Drummond deixou a vice-presidência jurídica.
José Cezário, ex-diretor financeiro da Rumo, assumirá as funções de diretor financeiro e diretor de Relações com Investidores. A partir de 1º de setembro de 2026, a área jurídica também passará a se reportar a ele.
Saída da Bolsa de Nova York
A Cosan anunciou ainda o cancelamento voluntário da listagem de seus recibos de ações na Bolsa de Nova York.
Após a conclusão do processo regulatório, a companhia também pretende encerrar seu registro junto ao órgão regulador do mercado de capitais dos Estados Unidos.
A medida deve reduzir despesas corporativas e tornar a estrutura de listagem mais eficiente. Na avaliação do Safra, a decisão é positiva porque está alinhada ao processo de simplificação organizacional e de redução de custos da holding.
Próximos passos
A Cosan entra na segunda metade de 2026 com foco na desalavancagem, na venda de ativos e na simplificação de sua estrutura.
A evolução da cobertura do serviço da dívida será um dos principais pontos de acompanhamento. O cumprimento da projeção de 0,8 a 1,2 vez dependerá do recebimento de dividendos, da monetização de ativos da Radar e da redução das despesas financeiras.
O desempenho operacional de Rumo, Compass, Moove e Radar também continuará sendo determinante para a geração de caixa e para a capacidade de redução do endividamento da companhia.