O segundo trimestre de 2026 reforçou uma leitura mais seletiva para o setor de consumo discricionário, com desempenhos contrastantes entre empresas de varejo e marcas de consumo não essencial. Na avaliação dos especialistas do Banco Safra, os números da Lojas Renner (LREN3) foram negativos, marcados por frustração em vendas, menor rentabilidade e revisão para baixo das projeções de crescimento da receita de varejo para o ano.
A companhia reportou vendas de R$ 4,2 bilhões, alta de 0,8% na comparação anual, mas 4,9% abaixo da estimativa do Safra. O desempenho foi pressionado por um ambiente de consumo mais fraco do que o previsto, pelo impacto da Copa do Mundo no fluxo de lojas e por um cenário competitivo mais desafiador.
O crescimento de vendas nas mesmas lojas, conhecido como SSS, foi um dos principais pontos de atenção. No vestuário, a Renner avançou apenas 1,5%, desempenho inferior ao de concorrentes como C&A (CEAB3), com alta de 4,1%, e Riachuelo (RIAA3), com crescimento de 7,8%. Para o Safra, essa diferença reforça a percepção de que a companhia enfrentou dificuldades específicas de execução comercial no período.
Guidance menor deve pesar no sentimento de curto prazo
O corte na projeção de crescimento da receita de varejo para 2026 ampliou a leitura negativa sobre o trimestre. A Renner reduziu o intervalo esperado de expansão de 9% a 13% para 4% a 8%, citando desempenho de vendas mais fraco do que o esperado no 2T26. As demais metas de médio e longo prazo foram mantidas.
Na visão do Safra, a revisão tende a afetar o sentimento dos investidores no curto prazo, ainda que a recomendação para LREN3 permaneça em Compra. O banco sustenta a visão positiva pelo valuation considerado atrativo, com múltiplo estimado de 8,5 vezes o lucro de 2026.
Apesar disso, o relatório destaca que será necessário acompanhar se a fraqueza observada no trimestre foi pontual ou se representa uma desaceleração mais ampla da trajetória de receita da companhia.
Margem da Renner fica abaixo do esperado
A rentabilidade também veio aquém das expectativas. A margem bruta atingiu 62,6%, alta de 10 pontos-base na comparação anual e 50 pontos-base acima da estimativa do Safra, favorecida por melhor gestão de estoques, maior participação de vendas a preço cheio e ganhos operacionais.
Ainda assim, o EBITDA ajustado somou R$ 833 milhões, com margem de 19,8%, queda de 130 pontos-base em relação ao ano anterior e 60 pontos-base abaixo da projeção do Safra. O desempenho refletiu menor alavancagem operacional e resultado mais fraco em serviços financeiros.
O lucro líquido totalizou R$ 405 milhões, praticamente estável na comparação anual, mas 9% abaixo da estimativa do banco.
Realize adiciona pressão ao resultado consolidado
Na divisão de serviços financeiros, a Realize apresentou queda de 1,7% na receita, embora tenha mantido qualidade de crédito considerada saudável. A receita somou R$ 509 milhões, acima da estimativa do Safra, mas o EBITDA da unidade foi de apenas R$ 54 milhões, queda de 21% em bases comparáveis e 41% abaixo da projeção.
A rentabilidade mais fraca refletiu aumento de despesas operacionais em um ambiente de crédito ao consumidor ainda desafiador. Mesmo assim, a carteira permaneceu relativamente estável, com aumento de apenas 30 pontos-base no índice de inadimplência.
Alpargatas surpreende positivamente com margem e execução
Na direção oposta, a Alpargatas (ALPA4) apresentou resultados avaliados como positivos pelo Safra. A companhia reportou receita líquida consolidada de R$ 1,23 bilhão, crescimento de 11,4% na comparação anual e 5,2% acima da estimativa do banco.
O destaque veio das operações brasileiras da Havaianas, que registraram receita líquida de R$ 809 milhões, alta de 16,6% e 7,9% acima da projeção do Safra. O desempenho foi impulsionado por crescimento de 8,7% nos volumes e aumento de 7,5% no ticket médio, apoiado por um mix de produtos mais favorável.
Na divisão internacional, a receita líquida foi de R$ 406 milhões, avanço de 2,3%, em linha com as estimativas. Os volumes cresceram 11,9%, compensando a queda de 8,6% no ticket médio.
Eficiência operacional sustenta expansão de rentabilidade
A margem bruta consolidada da Alpargatas atingiu 56,3%, expansão de 160 pontos-base na comparação anual e 166 pontos-base acima da estimativa do Safra. O ganho foi atribuído sobretudo à melhora de rentabilidade no negócio internacional, com menores custos e disciplina de despesas.
O EBITDA ajustado consolidado chegou a R$ 286 milhões, acima da projeção de R$ 225 milhões. A margem EBITDA foi de 23,3%, avanço expressivo de 580 pontos-base em relação ao 2T25 e 400 pontos-base acima da estimativa do banco.
O lucro líquido somou R$ 170 milhões, ante R$ 88 milhões no mesmo período do ano anterior, ficando 23,5% acima do esperado pelo Safra. A alavancagem permaneceu controlada, com dívida líquida de R$ 516 milhões e relação dívida líquida/EBITDA de 0,5 vez, estável ante o primeiro trimestre de 2026.
Valuation limita entusiasmo com ALPA4
Apesar da leitura operacional favorável, o Safra vê oportunidades mais atrativas em outros nomes da cobertura de consumo discricionário. O principal ponto de cautela é o valuation: ALPA4 negocia a 12,9 vezes o lucro estimado para 2026, patamar que reduz o espaço para assimetria positiva no curto prazo.
Ainda assim, a recuperação dos volumes internacionais permanece como vetor relevante para revisões positivas de resultado. A melhora na disponibilidade de produtos, nos níveis de serviço aos clientes e na execução comercial na Europa sugere que a companhia pode estar em uma fase mais consistente de normalização operacional.
Leitura para investidores: execução volta ao centro da tese
Os resultados do 2T26 mostram que, no consumo discricionário, a tese de investimento depende menos de crescimento setorial homogêneo e mais da capacidade de cada companhia executar bem em um ambiente de demanda seletiva.
No caso da Renner, o balanço trouxe dúvidas sobre ritmo de vendas, competitividade e conversão operacional, embora o valuation ainda sustente recomendação positiva. Para a Alpargatas, o trimestre reforçou sinais de ganho de eficiência, mas parte relevante dessa melhora parece já refletida nos múltiplos.
Em síntese, o Safra identifica um trimestre negativo para LREN3, pela combinação de vendas frustrantes, margem abaixo do esperado e corte de guidance, e positivo para ALPA4, pela melhora de execução, expansão de margens e avanço operacional. O setor segue exigindo seletividade, com foco em empresas capazes de preservar rentabilidade mesmo diante de um consumidor mais cauteloso.