As construtoras residenciais abriram 2026 com um trimestre sólido, mesmo em um ambiente macroeconômico mais desafiador. Juros elevados e tensões geopolíticas no Oriente Médio aumentaram a cautela no mercado. Ainda assim, a maior parte das companhias reportou números operacionais resilientes no primeiro trimestre.
O principal vetor de sustentação veio do segmento de baixa renda. A melhora na acessibilidade para os compradores manteve o ritmo de expansão das vendas, enquanto o médio e alto padrão continuaram a mostrar boa absorção de lançamentos. Ao mesmo tempo, as vendas de estoque seguiram firmes, apesar das condições mais restritivas de financiamento.
Por outro lado, o aumento dos estoques começou a pesar sobre a velocidade de vendas. Esse movimento já aparece com mais clareza entre as empresas com atuação em segmentos de renda mais alta.
Baixa renda mantém ciclo de crescimento
As construtoras focadas em baixa renda tiveram mais um trimestre positivo. Embora os lançamentos consolidados tenham ficado praticamente estáveis, as vendas combinadas do segmento cresceram 14% na comparação com o mesmo período do ano anterior. Com isso, a velocidade de vendas consolidada permaneceu em nível robusto, em 24,6%.
Parte da leve frustração em relação às estimativas decorreu da composição das vendas da Cury (CURY3). Apesar de a companhia ter registrado crescimento nas vendas líquidas, a fatia proporcional da empresa nesse resultado ficou menor na comparação anual, em razão da maior participação de sócios minoritários em projetos do trimestre.
Entre os destaques positivos, a Tenda (TEND3) apresentou o desempenho mais forte. A companhia superou as projeções de vendas e entregou expansão anual de 41%. A Direcional (DIRR3) também mostrou números ligeiramente acima do esperado, com melhora na velocidade de vendas e avanço da geração recorrente de caixa em relação ao trimestre anterior.
Na outra ponta, a Plano & Plano (PLPL3) apresentou piora operacional, com queda da velocidade de vendas e deterioração da geração de caixa livre.
Programa habitacional reforça perspectiva do setor
O Safra segue confiante na dinâmica operacional das empresas de baixa renda. A expectativa do banco se apoia na nova rodada de incentivos do programa Minha Casa, Minha Vida, cuja implementação deve ocorrer até o fim de abril de 2026.
As mudanças incluem aumento dos tetos de renda em todas as faixas e elevação do preço máximo dos imóveis nas faixas 3 e 4. Na prática, essas medidas devem ampliar o acesso ao crédito e melhorar ainda mais a capacidade de compra das famílias.
Esse cenário pode levar a acessibilidade a níveis recordes no segmento. Além disso, tende a ajudar as construtoras a compensar uma eventual pressão de custos ligada à alta do petróleo e do frete.
Médio e alto padrão mostram resiliência
No segmento de médio e alto padrão, o trimestre também trouxe sinais construtivos. Os lançamentos consolidados recuaram 12% na comparação anual, mas as vendas líquidas avançaram 23% e ficaram acima da projeção do Safra.
O resultado refletiu a forte absorção dos novos projetos lançados e a resiliência das vendas de unidades em estoque. Com isso, o volume total de estoques caiu 2% em relação ao trimestre anterior, para R$ 23,8 bilhões. O movimento alivia parte das preocupações com um acúmulo mais forte de unidades prontas ou em construção, depois do ritmo acelerado de lançamentos observado em trimestres anteriores.
Ainda assim, o nível de estoque continua elevado na comparação anual. Houve crescimento de 28% em relação ao mesmo período de 2025, o que passou a pressionar a velocidade de vendas do segmento. O indicador consolidado ficou em 15,6%, abaixo do patamar de um ano antes, embora ainda em nível considerado saudável.
Estoque maior limita avanço das vendas
A principal leitura do trimestre no médio e alto padrão está menos ligada à demanda e mais ao volume disponível para comercialização. Em outras palavras, o mercado segue absorvendo lançamentos em ritmo sólido, mas o estoque mais elevado reduz a velocidade relativa das vendas.
Entre as empresas acompanhadas pelo Safra, Eztec (EZTC3) e Moura Dubeux (MDNE3) se destacaram positivamente. As duas companhias registraram as maiores expansões anuais de vendas, com alta de 81% e 86%, respectivamente.
A Cyrela (CYRE3) apresentou números em linha com o esperado. O bom desempenho da operação ligada à baixa renda ajudou o resultado, embora a velocidade de vendas nos segmentos de média e alta renda tenha vindo mais fraca.
Já Even (EVEN3) e Lavvi (LAVV3) tiveram desempenho mais pressionado. A ausência de lançamentos no trimestre prejudicou as vendas e contribuiu para a retração dos seus indicadores de velocidade comercial.
O que observar daqui para frente
O setor residencial começa 2026 com uma base operacional saudável. A baixa renda deve seguir como principal motor de crescimento, apoiada pela expansão dos incentivos habitacionais e por uma demanda ainda aquecida.
No médio e alto padrão, o quadro também permanece positivo, embora mais seletivo. A demanda continua presente, mas o aumento dos estoques exige maior disciplina comercial e deve seguir como ponto de atenção ao longo dos próximos trimestres.
Para o investidor, a leitura central é clara. O setor mostra capacidade de adaptação mesmo em um ambiente de crédito mais restritivo. Ao mesmo tempo, os resultados reforçam a diferença entre companhias com execução mais eficiente, melhor gestão de estoque e maior exposição a segmentos com demanda estruturalmente mais forte.