O setor de construção residencial vive um momento de forte divergência entre preços de mercado e fundamentos. Após anos de desempenho superior, impulsionado pelo protagonismo do programa Minha Casa Minha Vida, as ações das construtoras recuaram entre 30% e 35% desde os picos recentes.
A piora do sentimento ocorreu em meio à reprecificação de riscos globais, reacendendo preocupações inflacionárias em um ambiente ainda marcado pelos choques observados entre 2020 e 2022. Apesar disso, os fundamentos do setor permanecem praticamente inalterados.
Programa habitacional segue como pilar de resiliência
O Minha Casa Minha Vida continua sendo uma importante fonte de retorno para o setor. O programa apresenta menor sensibilidade aos juros e níveis recordes de acessibilidade, o que favorece repasses de preços mesmo em um cenário macroeconômico mais desafiador.
Além disso, o setor conta com diversos mecanismos de proteção contra pressões de custos. O aumento do endividamento das famílias e a leve alta da inadimplência inicial exigem atenção, mas os indicadores de crédito seguem saudáveis diante de um mercado endereçável ainda amplo.
Seletividade ganha importância em cenário mais avesso ao risco
Em um ambiente de maior volatilidade, a escolha das empresas se torna decisiva. O Banco Safra destaca a preferência por construtoras com menor beta, histórico comprovado e consistência de resultados.
A recente correção de preços abriu uma janela de oportunidade para esse perfil de ativos, com destaque para companhias mais bem posicionadas para atravessar um ciclo de maior incerteza.
Direcional se destaca como principal escolha
A Direcional (DIRR3) aparece como a principal preferência do Safra no setor. A companhia tem menor exposição a choques inflacionários, sustentada por um mix de receitas mais concentrado em estoques prontos e por economias de custos ainda a capturar.
Com as ações cerca de 30% abaixo dos picos recentes, o Safra projeta múltiplo preço sobre lucro ajustado de 5,4 vezes para 2027 e dividend yield estimado em 13%, níveis considerados atrativos frente ao risco.
Cury e Tenda também aparecem bem posicionadas
A Cury (CURY3) apresenta maior exposição a custos, mas conta com proteção relevante por meio de uma carteira de recebíveis indexada à inflação, que cobre cerca de 75% dos custos do backlog. Esse fator pode ser compensado por crescimento de receitas e diluição de despesas administrativas. O múltiplo projetado é de 5,8 vezes lucro ajustado, mesmo considerando um cenário mais conservador para margens.
A Tenda (TEND3) destoou do restante do setor, com alta de 37% no ano, apoiada por resultados acima do esperado e revisões positivas de lucro. O segmento principal da companhia mostra maior capacidade de lidar com inflação, devido ao ciclo de construção mais curto e maior nível de provisões. Ainda assim, a ação negocia a 4,7 vezes o lucro projetado para 2027, com desconto relevante frente às principais concorrentes.
Visão seletiva para Plano e Plano e cautela com MRV
O Safra mantém uma visão mais cautelosa para a Plano e Plano (PLPL3). As estimativas de lucro foram reduzidas em 31% para 2026 e 2027, refletindo vendas mais fracas e pressão sobre margens. Mesmo após queda de 35% no ano, o valuation segue atrativo, mas a menor visibilidade limita o apelo no curto prazo.
No caso da MRV (MRVE3), apesar da melhora operacional, a alavancagem ainda representa o principal fator de risco. Custos mais elevados podem pressionar margens, enquanto o processo de desalavancagem da Resia tende a ser mais longo, com risco de novos ajustes contábeis. O desconto em valuation não é considerado suficiente para justificar uma visão mais construtiva.
Principais riscos seguem no radar
Entre os principais riscos para o setor estão uma inflação de construção acima do esperado, mudanças regulatórias que pressionem custos trabalhistas, maior endividamento das famílias afetando vendas e inadimplência, redução de funding via FGTS e desafios de execução diante da forte expansão dos lançamentos.
Ainda assim, o Banco Safra avalia que a assimetria atual favorece uma leitura mais construtiva, desde que acompanhada de elevada seletividade.