A Cogna (COGN3) divulgou resultados mistos no quarto trimestre de 2025, com receita líquida e EBITDA ajustado abaixo das estimativas do Safra, embora acima do consenso de mercado. O desempenho refletiu, principalmente, margens mais fracas na Kroton e uma frustração de receita maior do que o esperado na Saber, em função do deslocamento das entregas do Programa Nacional do Livro e do Material Didático (PNLD) para o primeiro trimestre de 2026.
A companhia informou que deve reconhecer cerca de R$ 166 milhões em receitas e R$ 52 milhões em EBITDA relacionados ao PNLD no início de 2026. Ainda assim, o Safra avalia que esse montante ficou abaixo das projeções oficiais e não representa um vetor positivo relevante para a tese no curto prazo.
Por outro lado, abaixo da linha operacional, o resultado financeiro surpreendeu positivamente. Esse desempenho permitiu que o lucro líquido ajustado ficasse ligeiramente acima das estimativas do Safra e do consenso.
Kroton sustenta volumes
A Kroton registrou receita líquida de R$ 1,157 bilhão, avanço de 3% na comparação anual. A companhia alterou a forma de alocação de descontos concedidos a alunos inativos e, ao normalizar esse efeito, o crescimento teria sido de aproximadamente 8%.
A base de alunos apresentou tendências construtivas. O segmento presencial cresceu 7% no segundo semestre de 2025, enquanto a KrotonMed avançou 10% e o ensino a distância teve alta de 3%. Além disso, a evasão mostrou melhora tanto no presencial quanto na KrotonMed.
O ticket médio, no entanto, apresentou comportamento misto. O presencial recuou 2%, refletindo um mix de cursos com menor valor ao longo do ciclo de vida do aluno. A KrotonMed também registrou queda de 2%, influenciada pelo maior peso do ensino a distância. Em contrapartida, o ticket do EAD cresceu 11%, impulsionado pela maior penetração de cursos na área de saúde.
A margem bruta contraiu 2,6 pontos percentuais na comparação anual, pressionada por custos mais elevados com docentes, especialmente em cursos regulados. Como consequência, a margem EBITDA ajustada da Kroton ficou em 26,0%, queda de 1,2 ponto percentual. A sustentabilidade dessas margens, diante do novo arcabouço regulatório, deve dominar o debate com investidores ao longo de 2026.
Vasta avança e Saber sofre impacto
A Vasta apresentou crescimento de 11% na receita líquida, impulsionado pelo segmento B2G, que avançou 136% na comparação anual. Além disso, a companhia se beneficiou de melhor desempenho fora do modelo de assinaturas, o que contribuiu para a expansão de 3,4 pontos percentuais na margem EBITDA ajustada.
Na Saber, o desempenho foi mais fraco. A receita ficou cerca de 41% abaixo da estimativa do Safra, reflexo do adiamento das entregas do PNLD do Ensino Médio para 2026. Ao mesmo tempo, despesas de marketing antecipadas para o próximo ciclo pressionaram ainda mais as margens no trimestre.
Resultado consolidado e geração de caixa permanecem sólidos
No consolidado, o EBITDA ajustado da Cogna somou R$ 769 milhões, cerca de 14% abaixo da estimativa do Safra. A margem EBITDA atingiu 34,9%, com queda de 2,66 pontos percentuais em relação ao mesmo período do ano anterior. A diferença em relação às projeções concentrou-se, principalmente, no deslocamento do PNLD da Saber e na estrutura de custos da Kroton.
A depreciação e amortização vieram melhores do que o esperado, enquanto o resultado financeiro líquido superou as projeções, apoiado por receitas financeiras mais fortes e menor despesa com juros. Com isso, o lucro líquido ajustado alcançou R$ 315 milhões, ligeiramente acima das estimativas.
O fluxo de caixa operacional após investimentos somou R$ 335 milhões, em linha com o esperado. Apesar do aumento dos pagamentos de juros, que refletiu o ambiente de taxas ainda elevadas no cenário global, o fluxo de caixa livre permaneceu positivo em R$ 132 milhões. A alavancagem encerrou o trimestre em 1,21 vez dívida líquida sobre EBITDA ajustado, nível considerado confortável.
Cenário macro reforça seletividade dos investidores
O desempenho da Cogna ocorre em um ambiente global marcado por juros elevados por mais tempo, crescimento econômico moderado e maior cautela dos investidores diante das incertezas geopolíticas. Tensões persistentes no Oriente Médio, conflitos prolongados no Leste Europeu e a desaceleração gradual das principais economias continuam a influenciar a alocação de capital, especialmente em mercados emergentes.
Nesse contexto, empresas com geração de caixa previsível, balanços equilibrados e capacidade de adaptação regulatória tendem a ser favorecidas. A execução consistente da Cogna nos últimos anos sustenta a visão construtiva do Safra, que mantém a recomendação de compra, embora reconheça que a trajetória de margens, especialmente na Kroton, seguirá como principal ponto de atenção para o mercado.