A Cemig (CMIG4) reportou resultados fortes sob o critério IFRS no quarto trimestre de 2025, com EBITDA ex-equivalência patrimonial de R$ 2,906 bilhões, impulsionado principalmente pelo reconhecimento contábil do acordo para encerramento de obrigações pós-emprego relacionadas ao plano de saúde da companhia.
Ao se excluir itens não recorrentes e os efeitos de equivalência patrimonial, o EBITDA ajustado somou R$ 1,771 bilhão, queda de 8% na comparação anual, mas ainda 6% acima da projeção interna e do consenso de mercado. A leitura do trimestre, contudo, exige alguma cautela: embora o número consolidado tenha vindo melhor do que o esperado, o desempenho operacional permaneceu pressionado em diferentes frentes.
A companhia também anunciou juros sobre capital próprio (JCP) de R$ 658 milhões, com data-ex em 25 de março, o que implica dividend yield de cerca de 2%.
Receita resiliente, mas volumes seguem como ponto de atenção
As receitas do trimestre, excluindo linhas de construção, ficaram praticamente estáveis em relação ao mesmo período do ano anterior. O desempenho refletiu, de um lado, maiores volumes vendidos nas unidades de geração e trading, com avanço de 12,8% na base anual, e o reajuste tarifário de 7,78% aplicado aos consumidores da distribuidora.
Do outro lado, esses efeitos foram parcialmente anulados por uma dinâmica ainda fraca de volumes na distribuição e na unidade de gás.
Distribuição mostra contração menor que a esperada
Na unidade de distribuição, os volumes totais recuaram 1,4% na comparação anual, já considerando a compensação por geração distribuída. Ainda assim, o número veio melhor do que o inicialmente antecipado. No mercado cativo, a queda foi de 4,3%, levemente melhor que a projeção de retração de 4,8%.
Esse desempenho sugere alguma resiliência comercial, mas ainda aponta para um ambiente desafiador para crescimento orgânico da distribuidora.
Gás sente migração para o mercado livre
Na unidade de gás, os volumes vendidos caíram 12% em relação ao 4T24, desempenho pior que a estimativa de retração de 6,4%. O movimento foi explicado pela migração contínua de clientes para o mercado livre, tendência que vem pressionando a base de consumo do segmento regulado.
Custos e efeitos não recorrentes distorcem leitura operacional
Pelo lado dos custos, a fotografia do trimestre foi mais pressionada. Os custos de compra de energia ficaram estáveis na comparação anual, mas vieram 68% acima da estimativa, impactados por um nível ainda elevado de GSF e pela posição vendida no mercado spot.
Os custos gerenciáveis totais foram fortemente beneficiados por efeitos extraordinários. Entre eles, destacou-se a reversão positiva de R$ 1,1 bilhão relacionada ao acordo de encerramento das obrigações pós-emprego em saúde, além de ganhos de R$ 134 milhões associados a ativos vendidos ou adquiridos no trimestre. Em sentido oposto, houve um item não recorrente negativo de R$ 193 milhões ligado a provisões de encargos trabalhistas.
Sem esses efeitos, a leitura operacional seria menos favorável: os custos cresceriam 11% na base anual, e os custos gerenciáveis da distribuição ficariam 10% acima das estimativas.
Inadimplência melhora, mas alavancagem sobe
Entre os indicadores operacionais, as perdas totais de energia permaneceram estáveis em 11,4% na comparação trimestral. Já as provisões para inadimplência corresponderam a 0,7% da receita líquida, abaixo de 1% no 3T25 e também inferiores à estimativa de 1,0%, sinalizando melhora na qualidade de recebimento.
Na abertura por segmento, o EBITDA regulatório ajustado da distribuição ficou 9% acima da projeção, enquanto o desempenho da unidade de geração e trading ficou 23% abaixo do esperado.
O lucro líquido foi favorecido pelos efeitos não recorrentes já mencionados e por maiores resultados de equivalência patrimonial, embora parcialmente compensado por uma alíquota efetiva de imposto mais elevada.
Ainda assim, um ponto de atenção para investidores foi a alta da alavancagem, que encerrou o trimestre em 2,3 vezes dívida líquida sobre EBITDA, ante 1,8 vez no trimestre anterior.
Leitura para o mercado é construtiva, mas sem catalisador claro
A avaliação do trimestre é de um resultado ajustado razoável, ainda que marcado por ruídos contábeis e operacionais. A receita veio acima do esperado, com a compensação de geração distribuída ajudando a suavizar a fraqueza do mercado cativo. Por outro lado, custos ainda elevados, pressão em gás, impacto de GSF e desempenho mais fraco em geração e trading impedem uma revisão mais otimista da tese.
Nesse contexto, a leitura para o investidor segue equilibrada. O resultado do 4T25 não deteriora a percepção sobre a companhia, mas também não parece suficiente para alterar de forma estrutural a visão sobre o papel no curto prazo. Assim, a recomendação permanece Neutra, em linha com uma empresa que ainda combina resiliência operacional com desafios relevantes de execução e rentabilidade.