Ao entrar no primeiro trimestre de 2026, o setor de bancos digitais enfrenta a pressão típica do início do ano sobre a qualidade do crédito. Esse movimento sazonal, por si só, já costuma elevar atrasos e pressionar indicadores de inadimplência.
Ao mesmo tempo, os especialistas do Banco Safra observam uma deterioração mais disseminada dos empréstimos em atraso no sistema. Por isso, a próxima rodada de resultados deve ajudar a responder uma questão relevante para investidores: a piora vista no período decorre apenas de fatores sazonais ou sinaliza um risco maior para os próximos trimestres.
Nesse contexto, Nubank (ROXO34) e Inter (INBR32) devem ser analisados por óticas diferentes, segundo o Safra. No caso do Nubank, o foco recai sobre a combinação entre expansão da carteira, crescimento de receitas e disciplina de risco. Já no Inter, a atenção se concentra na resiliência da qualidade dos ativos, especialmente nas linhas mais arriscadas.
Nubank deve manter crescimento, mas despesas seguem no foco
O Safra espera que o Nubank divulgue resultado em 14 de maio, após o fechamento do mercado, com lucro líquido de US$ 926 milhões. O número implicaria alta de 3,5% em relação ao trimestre anterior e avanço de 66% na comparação anual.
A expectativa segue apoiada em dois vetores principais. De um lado, o banco deve manter crescimento forte da carteira de crédito, estimado em 6,3% sobre o trimestre anterior. De outro, a instituição ainda se beneficia de ganhos no custo de captação.
Apesar disso, o mercado deve acompanhar com atenção a evolução da inadimplência. O Safra projeta alta de 18 pontos-base no índice de atrasos acima de 90 dias, para 6,8%. Já o custo de risco líquido deve subir levemente, para 15,4%. Até aqui, no entanto, o banco ainda não dá sinais de deterioração mais relevante além do comportamento sazonal esperado para o período.
A margem financeira também deve avançar. A projeção indica expansão de 39 pontos-base frente ao trimestre anterior. Com isso, o lucro bruto pode chegar a US$ 2,043 bilhões, com crescimento de 5,1% no trimestre e de 55% em 12 meses.
Expansão global e tecnologia devem pressionar a eficiência do Nubank
Se a frente de crédito tende a permanecer relativamente sólida, as despesas operacionais continuam como ponto de atenção para o Nubank. O Safra estima alta de 70,1% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Esse avanço reflete três fatores principais: expansão internacional, retorno mais intenso ao escritório e investimentos em tecnologia. Embora a companhia já tenha antecipado essas pressões, o movimento deve pesar sobre os indicadores de eficiência ao longo de 2026.
Na prática, isso significa que o mercado deve avaliar não apenas o crescimento da operação, mas também a capacidade do banco de preservar rentabilidade em meio ao aumento de custos.
Inter deve mostrar se postura mais conservadora basta no atual ambiente
Para o Inter, que publica seus números em 7 de maio, antes da abertura do mercado, o Safra espera lucro líquido de R$ 394 milhões no primeiro trimestre, com retorno sobre o patrimônio de 15,4%.
A carteira de crédito, desconsiderando antecipação de recebíveis, deve crescer 33% em 12 meses, abaixo dos 36% registrados no quarto trimestre de 2025. Já o portfólio principal, que inclui cartão de crédito, crédito imobiliário e empréstimo pessoal, deve avançar 35%.
O banco também deve manter o ritmo de concessões próximo de R$ 600 milhões no crédito consignado privado. Ainda assim, a carteira de cartões tende a desacelerar, com crescimento esperado de 23% em 12 meses, ante 29% no trimestre anterior. Esse movimento reflete tanto a sazonalidade quanto uma postura mais seletiva na tomada de risco.
Qualidade do crédito será o principal teste para o Inter
O Safra avalia que o Inter tem perfil estruturalmente mais conservador do que outros bancos digitais. Ainda assim, o banco já apresentou inadimplência pior que a de seus pares no quarto trimestre de 2025, o que eleva a importância dos números agora.
A expectativa é de margem financeira bruta em 9,6% e aumento de 34 pontos-base no custo de risco frente ao trimestre anterior. Esse avanço deve refletir maior atraso inicial na carteira de cartões e maior maturidade da carteira de crédito consignado privado.
Por outro lado, o banco deve mostrar melhora operacional. As despesas totais podem cair 3,2% em relação ao trimestre anterior, embora ainda avancem 24% em 12 meses. Com isso, a taxa de eficiência tende a melhorar em 322 pontos-base.
O resultado, portanto, deve funcionar como termômetro para entender se a estratégia atual de crédito segue adequada para o cenário ou se será necessário um ajuste adicional na concessão ao longo dos próximos meses.
O que essa prévia sinaliza para o investidor
A temporada de resultados dos bancos digitais no primeiro trimestre de 2026 deve trazer uma leitura mais refinada sobre risco e crescimento. Em vez de olhar apenas para expansão de carteira e lucro, o investidor deve observar a origem dessa rentabilidade e a sustentabilidade dos indicadores de crédito.
No Nubank, a principal questão envolve o equilíbrio entre crescimento, monetização e avanço das despesas. No Inter, o foco estará na capacidade de atravessar um ambiente mais desafiador sem piora relevante da inadimplência.
Em comum, os dois casos mostram que o início de 2026 pode marcar um teste importante para o setor. Se a piora dos indicadores ficar restrita à sazonalidade, a tese de crescimento tende a permanecer de pé. Se houver sinais de deterioração mais estrutural, o mercado deve revisar expectativas para os bancos digitais.