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Banco Mercantil perde tração no 2T26 em meio a crédito mais desafiador

Banco Mercantil manteve rentabilidade elevada no segundo trimestre de 2026, mas enfrentou desaceleração na carteira de crédito, menor contribuição de tarifas e deterioração gradual do custo de risco


O Banco Mercantil (BMEB4) encerrou o segundo trimestre de 2026 com lucro líquido recorrente de R$ 275 milhões, alta de 1% em relação ao trimestre anterior e resultado amplamente alinhado às estimativas dos especialistas do Safra. Ainda assim, a leitura para as ações é negativa, diante de sinais de moderação no crescimento e de um ambiente operacional mais complexo para o banco.

A rentabilidade permaneceu elevada. O retorno sobre o patrimônio líquido recorrente, medido pelo ROE, ficou em 41,4%, superando em 68 pontos-base a estimativa do Safra. O número reforça a capacidade do Mercantil de preservar margens em seu nicho de atuação, mas não elimina preocupações sobre a sustentabilidade da expansão dos resultados nos próximos trimestres.

O ponto central da análise é que o banco segue lucrativo, porém com menos vetores de aceleração. A desaceleração da originação de crédito, a pressão sobre receitas de serviços e o avanço do custo de risco reduzem a visibilidade para crescimento mais robusto dos lucros no curto prazo.

Consignado do INSS reduz ritmo de originação

Um dos principais fatores de pressão no trimestre foi o ambiente mais desafiador no mercado de crédito consignado do INSS. Mudanças operacionais no segmento reduziram os volumes mensais de originação em todo o setor, afetando também a dinâmica do Banco Mercantil.

Como consequência, a carteira de crédito do banco ficou praticamente estável nesse segmento. Ainda assim, os empréstimos consignados cresceram 1% no trimestre, desempenho ligeiramente acima das estimativas do Safra, refletindo ganho de participação de mercado em meio às dificuldades operacionais enfrentadas pela indústria.

Postura mais conservadora no consignado privado

No crédito consignado privado, a administração manteve uma abordagem mais cautelosa. A carteira avançou apenas R$ 200 milhões no trimestre, sinalizando seletividade maior na concessão de crédito.

Essa postura tende a proteger o balanço em um ambiente de inadimplência mais pressionada, mas também limita a velocidade de crescimento das receitas. Para os investidores, o dilema é claro: a disciplina de risco preserva qualidade no longo prazo, mas reduz o potencial de expansão no curto prazo.

Margem financeira cresce, mas fica abaixo do esperado

A margem financeira líquida, ou NII, cresceu 3% em relação ao trimestre anterior, mas ficou 2% abaixo das estimativas do Safra. O desvio foi explicado principalmente pela menor receita com derivativos.

Já o NII ajustado ao risco avançou de forma mais modesta, com crescimento de 2% no trimestre, alcançando R$ 1,037 bilhão, valor 1% inferior ao projetado. O desempenho mostra que a expansão da margem foi parcialmente compensada pelo aumento das provisões, em um cenário de risco de crédito mais exigente.

Custo de risco segue em alta

A qualidade dos ativos continua no centro das preocupações. O custo de risco subiu 50 pontos-base no trimestre, levando a um aumento de 8% nas provisões em relação ao período anterior.

Embora o índice de inadimplência acima de 90 dias, o NPL 90d, tenha recuado 19 pontos-base, para 3,1%, a melhora deve ser lida com cautela. Segundo a análise, o movimento reflete em parte a mudança no mix da carteira, com menor participação de linhas de maior rendimento e, em geral, maior risco.

Carteira total encolhe 1%

A carteira total de crédito do Banco Mercantil caiu 1% no trimestre, para R$ 24,9 bilhões. A retração foi puxada principalmente por duas linhas:

  1. Crédito FGTS: queda de 8%, para R$ 2,2 bilhões;
  2. Crédito pessoal: redução de 10% no trimestre.

Esses movimentos reforçam a leitura de moderação do crescimento. Em bancos de nicho, especialmente aqueles com forte exposição a crédito consignado e produtos de varejo, a capacidade de originar com qualidade é determinante para sustentar rentabilidade, receitas de serviços e percepção de risco pelo mercado.

Tarifas decepcionam e reforçam pressão sobre receitas

As receitas de tarifas também vieram abaixo do esperado, ficando 13% inferiores às estimativas do Safra. A provável explicação está na menor atividade de originação, que tende a reduzir também receitas associadas, como prêmios de seguros.

Essa dinâmica é relevante porque as tarifas funcionam como fonte complementar de receita e ajudam a diversificar o resultado além da margem financeira. Quando a originação desacelera, o impacto não se limita ao crédito: ele também aparece em serviços, seguros e produtos vinculados à relação com o cliente.

Despesas seguem controladas, mas crescem no ano

As despesas operacionais, ou Opex, aumentaram 19% em relação ao mesmo período do ano anterior, ainda que tenham ficado 3% abaixo da projeção do Safra.

O avanço anual das despesas acompanha a expansão estrutural do banco, mas, em um ambiente de crescimento mais lento das receitas, passa a exigir maior atenção. A eficiência operacional torna-se mais relevante quando a margem de erro diminui e o custo de risco sobe.

Segundo semestre deve continuar desafiador

A administração do Banco Mercantil reconheceu que as pressões sobre a qualidade dos ativos devem persistir e manteve uma visão cautelosa para o segundo semestre de 2026.

Para o Safra, o banco permanece bem posicionado em seu nicho e segue entregando rentabilidade elevada. No entanto, a combinação de crescimento mais lento das receitas, tarifas mais fracas e ventos contrários no crédito deve limitar o ritmo de expansão dos lucros.

Do ponto de vista de mercado, esse conjunto tende a manter o sentimento dos investidores mais contido no curto prazo. O resultado do 2T26 não aponta deterioração abrupta, mas sugere perda de tração em variáveis importantes para a tese de investimento.

Leitura para investimentos

A principal mensagem para investidores é que o Banco Mercantil ainda apresenta uma operação rentável, mas enfrenta um ambiente menos favorável para crescimento. O lucro veio em linha, o ROE segue forte e o banco conseguiu avançar no consignado mesmo em um contexto operacional difícil. Ainda assim, a desaceleração da carteira, a queda em linhas como FGTS e crédito pessoal, a frustração em tarifas e o aumento do custo de risco pesam sobre a avaliação das ações.

Em síntese, o trimestre reforça uma tese de cautela: o Mercantil preserva fundamentos relevantes, mas precisa demonstrar capacidade de retomar crescimento com qualidade, especialmente em um cenário no qual o crédito consignado do INSS passa por ajustes operacionais e a inadimplência segue no radar.


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