O Banco do Brasil (BBAS3) realizou na quarta-feira, 23 de abril de 2026, seu evento com investidores, com a presença da presidente Tarciana Medeiros, do diretor financeiro Marco Geovanne e de outros executivos. As apresentações indicaram que o banco segue com ações concretas para melhorar a operação, mas ainda enfrenta um ambiente desafiador.
Na avaliação do Safra, o cenário aponta para uma recuperação irregular da rentabilidade, em formato de W. Em outras palavras, o BB pode mostrar melhora em alguns momentos, mas ainda sujeito a novas pressões antes de uma normalização mais consistente.
Crédito rural ainda limita melhora dos resultados
O principal foco de atenção segue na carteira de agronegócio. A administração do Banco do Brasil afirmou que espera uma recuperação do índice de pagamentos em dia para 95% na safra de 2026, depois de um piso de 92% em 2025.
Ainda assim, os vencimentos de abril continuam pressionados por operações antigas. Além disso, os empréstimos concedidos sob o novo modelo de garantias e de análise de risco ainda representam uma fatia pequena dos vencimentos, perto de 20% do total.
Esse ponto importa porque a carteira antiga ainda concentra maior risco de inadimplência. Por isso, a melhora da qualidade dos ativos tende a ocorrer de forma gradual, e não de maneira linear.
Carteira renegociada mantém incerteza elevada
A Medida Provisória nº 1.314 prorrogou vencimentos de empréstimos que somam R$ 36,5 bilhões. Mesmo assim, ainda restam cerca de R$ 24 bilhões em vencimentos para 2026 ligados à carteira renegociada.
Para o Safra, esse estoque ainda deve continuar pressionando a qualidade dos ativos, já que essa carteira apresenta formação mais alta de atrasos e calotes. Como consequência, a visibilidade para uma retomada mais forte permanece limitada.
Além disso, fatores externos aumentam a incerteza. Entre eles estão os conflitos geopolíticos, os impactos sobre os custos de insumos, o número elevado de pedidos de recuperação judicial entre produtores rurais e os possíveis efeitos climáticos de La Niña.
Especialistas cortam estimativas para 2026 e 2027
Diante desse quadro, os especialistas do Safra reduziram sua estimativa de lucro por ação para 2026 em 9%. A projeção de lucro líquido caiu para R$ 20,356 bilhões, o que representa retorno sobre o patrimônio de 10,8%.
Esse número ficou abaixo da faixa indicada pelo próprio banco e 15% abaixo do consenso de mercado. A principal razão foi o aumento esperado das provisões, refletindo a perspectiva ainda fraca para o agronegócio e também um ambiente mais difícil para pessoas físicas e pequenas e médias empresas.
Para 2027, o Safra também revisou os números para baixo. A estimativa de lucro líquido passou para R$ 25,350 bilhões, queda de 5% em relação à projeção anterior. O retorno sobre o patrimônio estimado ficou em 13%.
Segundo o Safra, a base mais alta de provisões no primeiro semestre de 2027 não deve ser compensada pela receita com crédito, já que o banco deve enfrentar um ano de crescimento mais fraco, com menor originação no agronegócio e margens menores em depósitos.
Preço-alvo cai e recomendação segue neutra
O Safra manteve recomendação neutra para Banco do Brasil (BBAS3) e reduziu o preço-alvo da ação de R$ 28 para R$ 27.
A avaliação considera um retorno total potencial de 17% em relação aos níveis atuais. Ainda assim, o banco vê o nível de incerteza como elevado demais para uma visão mais construtiva no momento.
As ações de Banco do Brasil são negociadas a 6,5 vezes o lucro estimado para 2026 e a 5,2 vezes o lucro projetado para 2027. O papel também opera com rendimento de dividendos de 4% para 2026 e de 5% para 2027. Em relação ao valor patrimonial, a ação é negociada a 0,7 vez.
O que pode mudar a tese
Os principais riscos para a visão do Safra envolvem piora das condições macroeconômicas, deterioração adicional da qualidade dos ativos, mudanças regulatórias, concorrência mais agressiva e eventual interferência política.
Por enquanto, a leitura é objetiva. O Banco do Brasil mostrou quais medidas está tomando para atravessar a pressão no crédito rural. No entanto, a trajetória de recuperação ainda depende de fatores fora do controle do banco e segue cercada de pouca visibilidade.