O setor de bens de capital segue com alocação reduzida entre investidores institucionais, em um dos níveis mais leves observados nos últimos trimestres. Ainda assim, a recente correção de preços em parte relevante das ações recolocou alguns nomes no centro das discussões, sobretudo aqueles com maior liquidez, fundamentos reconhecidos e possibilidade de melhora de percepção ao longo dos próximos meses.
Nas conversas recentes com investidores em São Paulo e no Rio de Janeiro, o foco se concentrou em WEG (WEGE3), Embraer (EMBJ3), Marcopolo (POMO4) e GPS (GGPS3), além de questionamentos sobre a visibilidade de recuperação em companhias mais ligadas a mercados heavy-duty, como Randon (RAPT4) e Iochpe-Maxion (MYPK3). A leitura predominante é que o setor ainda carece de gatilhos mais claros, mas algumas ações já começam a se destacar no atual cenário.
Embraer desponta como principal destaque
A Embraer foi o nome que mais chamou a atenção nas reuniões. O interesse aumentou de forma relevante após a correção recente das ações, que tornou o valuation mais atrativo e reabriu espaço para recomposição de posição por parte dos investidores.
Apesar disso, o mercado ainda acompanha com cautela a trajetória de margens depois do primeiro trimestre de 2026, principal ponto de debate em torno da empresa. A dúvida sobre qual será o nível normalizado de rentabilidade ao longo do ano ainda limita uma postura mais construtiva no curto prazo. Ao mesmo tempo, fatores externos, como os desdobramentos da guerra, seguem adicionando volatilidade à tese.
Próximos gatilhos podem destravar a ação
Dois eventos concentram a atenção dos investidores:
- Os resultados do segundo trimestre, que devem oferecer maior visibilidade sobre a evolução das margens;
- A feira de Farnborough, em julho, vista como potencial catalisador para novos pedidos.
No atual cenário, a Embraer aparece como a ação com maior apetite marginal de compra dentro do setor, justamente por reunir valuation mais descontado e gatilhos relevantes no horizonte próximo.
WEG volta ao radar após forte correção
A WEG também figura entre os principais destaques. A empresa segue cercada por dúvidas sobre os resultados do segundo trimestre, o comportamento das margens ao longo de 2026 e o ritmo das expansões de capacidade até 2027. Ainda assim, a correção recente da ação passou a sustentar uma leitura mais equilibrada entre risco e retorno.
O papel acumula queda de cerca de 17% desde o pico de abril e ficou 39% atrás dos principais pares no ano, desempenho que levou parte dos investidores a reavaliar o ponto de entrada. A percepção é que boa parte das incertezas já pode estar refletida nos preços.
Mercado procura o timing de entrada
Alguns investidores veem os resultados do 2T26 como possível ponto de inflexão para a ação, com melhora ao longo do segundo semestre e maior clareza sobre a trajetória de resultados em 2027. Por isso, a WEG segue sendo monitorada de perto, ainda que o mercado permaneça dividido sobre a velocidade ideal de expansão da capacidade.
Marcopolo combina valuation atrativo e perfil defensivo
A Marcopolo aparece como uma das ações mais bem posicionadas em termos de valuation no setor. O papel negocia a cerca de 6,1 vezes o lucro estimado para 2026, com dividend yield de 8,2%, combinação que reforça sua atratividade relativa diante dos pares.
Há também a percepção de que o risco de revisões negativas relevantes de lucro é limitado. Isso ajuda a sustentar a visão de que a companhia representa uma alternativa mais defensiva dentro do universo local de bens de capital.
Falta de catalisador limita maior entusiasmo
Mesmo com notícias favoráveis — como programas públicos de renovação de frota, pedidos do Ministério da Saúde e o novo marco regulatório do transporte público — a ação ainda não conta com um gatilho claro de curto prazo. Assim, embora o valuation seja amplamente reconhecido como atrativo, o papel ainda depende de um evento mais concreto para destravar uma reprecificação mais forte.
GPS, Intelbras, Randon e Iochpe seguem sem tração
A GPS foi percebida com sentimento mais fraco. As preocupações dos investidores envolvem margens normalizadas, crescimento orgânico, integração da GRSA e atraso em novas frentes de aquisições. A recente queda da ação passou a levantar discussões sobre valuation — o papel negocia a cerca de 9,8 vezes o lucro estimado para 2026 —, mas a falta de catalisadores limita uma melhora mais consistente do sentimento.
A Intelbras teve recepção mista. Parte dos investidores vê suporte no valuation atrativo e no forte yield de fluxo de caixa livre, mas ainda não há consenso sobre a capacidade de a empresa converter esse desconto em tese mais clara de valorização.
No caso da Randon, a postura segue mais cautelosa, refletindo a baixa visibilidade sobre a trajetória de resultados. Já a Iochpe-Maxion despertou menos interesse, em meio à incerteza relacionada a uma possível multa ainda sem valor definido, fator que limita o apetite pelo papel.
Ações em destaque no setor no cenário atual
No quadro atual, as ações mais observadas pelos investidores em bens de capital podem ser resumidas da seguinte forma:
| Empresa | Leitura predominante | Principal vetor |
|---|---|---|
| Embraer | Nome mais atrativo no momento | Correção recente, valuation e gatilhos de curto prazo |
| WEG | Papel em monitoramento próximo | Reação possível após forte correção |
| Marcopolo | Opção mais defensiva | Valuation descontado e dividendos |
| GPS | Sentimento enfraquecido | Discussão migrando para valuation |
| Intelbras | Visão dividida | Suporte em geração de caixa |
| Randon | Postura de espera | Baixa visibilidade de resultados |
| Iochpe-Maxion | Menor engajamento | Incerteza sobre potencial multa |
Leitura para o mercado
A principal conclusão é que o setor de bens de capital ainda não vive uma retomada ampla de apetite, mas já apresenta focos claros de interesse. Nesse contexto, Embraer e WEG surgem como os papéis de maior destaque, enquanto Marcopolo se diferencia pelo perfil mais defensivo.
A dinâmica atual mostra um mercado menos disposto a antecipar melhora setorial de forma generalizada e mais inclinado a privilegiar ações com combinação de preço corrigido, fundamentos sólidos e eventos capazes de melhorar a visibilidade operacional.