A Aço Verde Brasil (AVB), siderúrgica integrada de aços longos com operação em Açailândia (MA), encerrou o segundo trimestre de 2026 com recuperação operacional. As vendas cresceram 22% na comparação anual, para 116,9 mil toneladas, enquanto a receita líquida avançou na mesma proporção, para R$ 438,2 milhões.
O desempenho refletiu principalmente a retomada dos volumes no mercado interno, com apoio da construção civil no Nordeste. Em um cenário de preços estáveis, a companhia também se beneficiou de custos menores de matérias-primas e do crédito presumido de ICMS.
Segundo relatório de crédito do Safra, divulgado em 23 de setembro de 2026, a empresa mantém risco de crédito moderado e perspectiva neutra. A análise destaca a posição de liquidez e a disciplina contratual da dívida, mas aponta desafios ligados à geração de caixa, aos incentivos fiscais e ao cronograma de refinanciamento.
Volume e custos impulsionam resultado
A recuperação da Aço Verde ocorre após um 2025 marcado pela concorrência do aço importado. No segundo trimestre, a expansão dos volumes elevou a receita e contribuiu para a melhora da rentabilidade.
A margem bruta subiu de 22,5% para 26,5% em um ano. Já o EBITDA ajustado avançou 39%, para R$ 116 milhões. O ganho resultou da combinação entre maior diluição de custos, matérias-primas mais baratas e crédito presumido de ICMS de R$ 44,4 milhões.
A companhia voltou ao lucro no período, com resultado líquido de R$ 7,2 milhões, ante prejuízo de R$ 0,9 milhão no segundo trimestre de 2025.
Frete e ativo biológico limitam avanço
Apesar da melhora operacional, dois fatores reduziram parte do ganho no trimestre. O aumento do preço do diesel elevou as despesas de frete, enquanto as despesas comerciais cresceram 40,3% na comparação anual.
Além disso, a Aço Verde registrou perda de R$ 21,8 milhões no valor justo de ativos biológicos. O efeito não teve impacto no caixa, mas limitou o avanço do EBIT, que cresceu 5,2% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Caixa livre permanece negativo
A principal atenção recai sobre a geração de caixa. No acumulado do primeiro semestre, a receita líquida cresceu 13,4%, para R$ 811 milhões, e o EBITDA ajustado avançou 17,6%, para R$ 217 milhões. Contudo, o lucro líquido caiu 73,1%, para R$ 7,3 milhões.
O caixa operacional ajustado alcançou R$ 102,5 milhões, apoiado por uma redução de R$ 61,6 milhões nos estoques. Ainda assim, o montante não cobriu os investimentos de R$ 141,1 milhões realizados no período.
Com amortizações de R$ 100 milhões e sem novas captações no semestre, a posição de caixa recuou R$ 140,8 milhões. A parcela de dívida de curto prazo também aumentou, passando de 16,2% para 28% do endividamento total.
Liquidez é confortável, mas desafios persistem
A Aço Verde encerrou junho com dívida líquida de R$ 651,6 milhões, equivalente a 1,53 vez o EBITDA ajustado dos últimos 12 meses. Pela métrica contratual, o índice permanece abaixo do limite de 2,5 vezes previsto nos contratos de dívida.
O caixa de R$ 586,9 milhões cobria 1,6 vez a dívida de curto prazo. Além disso, a sexta emissão de dívida, de R$ 250 milhões e aprovada em 18 de setembro, ajuda a antecipar parte dos vencimentos previstos entre julho de 2027 e junho de 2028.
Por outro lado, o Safra acompanha a evolução da alavancagem, a dependência de incentivos fiscais e o processo relacionado ao crédito presumido de ICMS. Esse benefício representou 37% do EBITDA ajustado e deve ser extinto gradualmente até 2032 pela reforma tributária.
O que investidores devem acompanhar
A Aço Verde possui uma única usina e atua em um segmento sujeito aos ciclos de commodities. Ao mesmo tempo, a companhia depende de empresas do mesmo grupo controlador para o fornecimento de madeira, biocarbono e terras arrendadas.
Para os próximos meses, os principais pontos de acompanhamento incluem:
- a capacidade de transformar a melhora operacional em geração recorrente de caixa livre;
- a trajetória da alavancagem financeira, especialmente acima de 2,2 vezes o EBITDA;
- a evolução da disputa tributária sobre créditos de ICMS;
- a execução dos investimentos e o refinanciamento de vencimentos entre 2027 e 2028.
A perspectiva do Safra para o crédito permanece neutra. A análise não identifica, no horizonte de 12 a 18 meses, um evento específico que justifique deterioração da avaliação, mas também não vê espaço para melhora antes da conclusão dos projetos em curso, prevista para dezembro de 2027.