O Banco Safra realizou, em 10 de agosto, em São Paulo, o J. Safra Basic Materials Day 2026, encontro que reuniu investidores e executivos de cinco empresas dos setores de recursos naturais. Participaram da agenda Aura Minerals (AURA33), Vale (VALE3), Gerdau (GGBR4), Dexco (DXCO3) e Klabin (KLBN11).
As discussões abordaram produção, custos, investimentos, desalavancagem e perspectivas para os mercados de ouro, minério de ferro, aço, madeira, celulose e embalagens.
Na avaliação do Safra, as companhias apresentam diferentes estágios de recuperação e crescimento. Enquanto a Aura Minerals acelera projetos de expansão, a Vale busca ampliar sua presença em cobre. A Gerdau avança em um processo de simplificação do portfólio, enquanto a Dexco trabalha na recuperação das margens. Já a Klabin combina disciplina de custos, redução da alavancagem e maior geração de caixa.
Aura acelera produção
A administração da Aura Minerals continua confortável com a projeção de produção para 2026. O primeiro semestre apresentou desempenho mais fraco, em linha com o plano de lavra, mas a expectativa é de melhora gradual ao longo do segundo semestre.
O terceiro trimestre deve mostrar crescimento em relação ao período anterior. No entanto, a avaliação do J. Safra indica que a melhora talvez ainda não seja suficiente para confirmar integralmente a projeção anual. Uma parcela relevante do crescimento esperado permanece concentrada no quarto trimestre.
Na mina de Apoena, a companhia acelerou o desenvolvimento após concluir uma campanha de dois anos de remoção de estéril no pit Nosde. Com isso, a Aura Minerals poderá acessar, ainda no fim de 2026, parte do minério de maior teor que estava previsto originalmente para 2027.
A contribuição de Nosde deve ficar mais evidente no quarto trimestre, com aumento da produção e redução dos custos unitários. A janela de minério de maior teor pode durar cerca de 18 meses e sustentar a retomada de um ritmo próximo de 80 mil onças em 2027.
A mina de Aranzazu também deve apresentar desempenho mais forte no segundo semestre. No segundo trimestre, a produção cresceu entre 14% e 15% em relação ao trimestre anterior, impulsionada por preços e teores mais elevados de cobre e ouro. Com esse desempenho, a expectativa é de que a operação alcance a faixa média ou alta da projeção anual.
Expansão das minas
Em Almas, a alimentação da planta supera as expectativas. No segundo trimestre, um britador móvel arrendado ajudou a elevar o processamento, mesmo com menores teores e taxas de recuperação.
A empresa agora investe na instalação de novos britadores. A meta é elevar a capacidade de processamento de aproximadamente 2,2 milhões a 2,4 milhões de toneladas por ano para 3 milhões de toneladas até o fim de 2026.
Além disso, o desenvolvimento subterrâneo deve aumentar os teores médios do minério de cerca de 0,9 grama por tonelada para entre 1,1 e 1,2 grama por tonelada até 2028.
O J. Safra considera 2026 um ano de transição para a Aura Minerals, devido ao maior nível de investimentos, à remoção de estéril e ao desenvolvimento subterrâneo. A avaliação é de que 2027 será o primeiro ano normalizado para o modelo da companhia.
Em Borborema, novos filtros devem elevar a alimentação da planta até o fim do ano. Os estudos de expansão estão próximos da conclusão, e a alternativa mais provável é o aumento da capacidade de processamento para 4 milhões de toneladas por ano.
A principal restrição continua sendo o fornecimento de água. A solução pode envolver maior coleta de esgoto em Currais Novos, mas depende de negociações com as partes interessadas locais. Por isso, a empresa não deve anunciar o projeto antes de apresentar um plano completo para o abastecimento.
A construção de Era Dorada permanece dentro do cronograma. O projeto tem investimento total estimado em aproximadamente US$ 382 milhões, concentrado em 2026 e 2027. A conclusão está prevista para o fim de 2027, com testes antes do início da produção no primeiro semestre de 2028.
A Aura Minerals também obteve a maior parte das licenças pré-operacionais de Matupá. A terraplenagem pode começar em meados de 2027, com construção estimada entre 12 e 14 meses.
No longo prazo, a companhia pretende alcançar produção anual de 1 milhão de onças equivalentes de ouro. Para isso, avalia projetos próprios e oportunidades de aquisições de ativos de cobre e ouro nas Américas.
Vale vê suporte para o minério
A Vale atribui a recente fraqueza dos preços do minério de ferro principalmente à sazonalidade do verão chinês e à manutenção das siderúrgicas. A companhia não identifica, neste momento, uma deterioração relevante da demanda estrutural.
O consumo chinês permanece relativamente estável em relação ao ano anterior, embora com leve queda. A Europa mostra sinais de recuperação, enquanto a Índia continua crescendo. O impacto indiano no mercado internacional, porém, ainda é limitado.
Do lado da oferta, a Vale estima que aproximadamente 120 milhões de toneladas de produção de alto custo se tornariam antieconômicas caso o preço do minério com teor de 61% de ferro permanecesse abaixo de US$ 95 por tonelada.
Esse cenário pode oferecer suporte aos preços. Na avaliação do J. Safra, contudo, a dinâmica dependerá do equilíbrio entre a produção global, a demanda chinesa e os custos dos produtores menos competitivos.
Custos seguem no foco
A Vale revisou sua projeção de custos devido a pressões relacionadas ao petróleo, ao câmbio e às paralisações em Fábrica e Viga.
A administração também registrou aumento do frete no segundo trimestre, para aproximadamente US$ 22 por tonelada. A frota contratada, no entanto, limitou a exposição da empresa à alta das tarifas de transporte de grandes navios.
Com a possível normalização dos preços do petróleo, a expectativa é de alívio gradual nos custos de entrega nos próximos trimestres.
Outro ponto de atenção envolve as mudanças propostas na legislação brasileira sobre cavernas. A Vale considera que as alterações podem liberar cerca de 30 milhões de toneladas de capacidade produtiva em Serra Norte.
O benefício poderia vir de maior flexibilidade operacional, menor necessidade de remoção de estéril e redução das distâncias de transporte. No longo prazo, a companhia também poderia acessar frentes de lavra com minério de melhor qualidade.
A implementação, porém, ainda exigiria regulamentação complementar, processos individuais para cada caverna e aprovações específicas. Por isso, o J. Safra considera improvável que a mudança tenha impacto na produção antes de 2029.
Cobre lidera o crescimento
O cobre continua sendo a principal prioridade de crescimento da Vale Base Metals, unidade da Vale. A companhia busca alcançar produção próxima de 700 mil toneladas em 2035.
No curto prazo, o crescimento deve vir de Bacaba, que já tem cerca de 40% das obras físicas concluídas. O projeto deve substituir parte da capacidade de Sossego.
Na sequência, aparecem as expansões de Salobo CPF e Alemão. Salobo CPF entrou na fase de execução e pode adicionar cerca de 30 mil toneladas por ano. Alemão, por sua vez, entrou na etapa de licenciamento no fim de 2025 e pode acrescentar aproximadamente 80 mil toneladas anuais.
A decisão final de investimento em Alemão pode ocorrer em 2027, considerando o prazo usual de 18 a 24 meses para o licenciamento.
A Vale também avalia projetos de longo prazo, como Hub Sul e Paulo Afonso. Juntos, eles podem representar uma capacidade adicional de até 180 mil toneladas por ano, segundo as estimativas discutidas no encontro.
Embora o cobre concentre a estratégia de expansão, a produção de níquel deve melhorar com operações estáveis em Onça Puma e nos ativos canadenses.
A Vale Base Metals também estruturou uma governança própria, relatórios internos e demonstrações financeiras separadas. A administração trata uma eventual oferta inicial de ações como uma possibilidade estratégica, e não como indicação de uma listagem iminente.
Gerdau simplifica operações
A Gerdau aplica no Brasil um plano de reestruturação semelhante ao executado anteriormente na América do Norte. A estratégia envolve desinvestir de operações menos rentáveis e concentrar recursos nos ativos mais competitivos.
O portfólio brasileiro é mais complexo, pois reúne usinas, produção integrada de aço, mineração e operações comerciais. Ainda assim, o objetivo é reduzir gargalos, operar menos plantas e aumentar a participação de produtos de maior margem.
A expectativa é de uma operação um pouco menor, mas mais eficiente e direcionada ao mercado doméstico.
A demanda brasileira ficou abaixo do esperado em julho. Feriados, férias e um ambiente macroeconômico mais fraco afetaram as vendas. As menores importações ajudaram parcialmente o mercado interno, mas o consumo aparente permaneceu pressionado.
Minério impulsiona Gerdau
A expansão de minério de ferro em Miguel Burnier entrou na fase de testes. A primeira produção é esperada entre agosto e setembro.
Quando estiver plenamente operacional, o projeto poderá adicionar aproximadamente R$ 1 bilhão ao resultado anual da Gerdau, além de reduzir os custos da unidade de Ouro Branco. A companhia também poderá vender o excedente de minério a terceiros.
O J. Safra estima que Miguel Burnier possa elevar em cerca de 3 pontos percentuais a margem da operação brasileira quando atingir sua capacidade plena. A contribuição inicial deve aparecer no segundo semestre de 2026, enquanto o impacto completo é esperado para 2027.
Na América do Norte, as operações continuam fortes, apoiadas pelos segmentos de construção não residencial, manufatura industrial e distribuição.
A manutenção planejada em Midlothian e os custos de usinas ociosas devem pressionar as margens no terceiro trimestre. Ainda assim, a demanda subjacente e os reajustes recentes de preços devem manter os resultados relativamente estáveis.
A Gerdau também espera melhorar a geração de caixa nos Estados Unidos com a redução dos estoques de tarugos e a liberação de capital de giro.
Disciplina de investimentos
A projeção de investimentos da Gerdau para 2026 é de R$ 4,7 bilhões. Os desembolsos, entretanto, estão abaixo do orçamento devido à valorização do real e ao cancelamento ou adiamento de projetos relacionados a ativos paralisados.
A administração considera entre R$ 4 bilhões e R$ 4,5 bilhões um nível recorrente adequado. Esse intervalo permitiria maior controle da execução e reduziria o risco de estouros de custos.
Com a conclusão do ciclo atual, especialmente em Miguel Burnier, os investimentos devem se concentrar em projetos menores, com foco em competitividade, retorno elevado e manutenção.
Dexco busca recuperar margens
A Dexco espera aumentar os volumes de painéis de madeira no terceiro trimestre, em linha com a sazonalidade histórica. O período deve ser o mais forte do ano para a divisão.
Além do crescimento dos volumes, a normalização dos preços do diesel e da ureia deve ajudar na recuperação das margens.
A produção própria de resina permite à Dexco manter até 45 dias de estoque de ureia. Essa estrutura reduz a exposição aos preços do mercado à vista.
A companhia formou estoques quando os preços começaram a subir no primeiro trimestre e reduziu as compras após o pico de março. Segundo a administração, a estratégia não representa uma operação de negociação de commodities, mas uma ferramenta para reduzir a volatilidade dos custos.
O negócio florestal combina prestação de serviços, parcerias, transações de terras e madeira em pé e trocas de madeira com produtores de celulose. O principal objetivo é garantir o abastecimento necessário à produção de painéis.
A Dexco pretende melhorar a divulgação financeira da divisão, com uma abertura específica para que os investidores diferenciem os resultados estruturais de transações pontuais.
Reestruturação avança
A divisão Deca deve apresentar melhora no terceiro trimestre, tradicionalmente o período mais forte do ano. Os volumes de louças sanitárias seguem o planejado, enquanto o desempenho de metais está ligeiramente acima das expectativas.
A manutenção dos preços continua sendo um dos principais fatores de sustentação da recuperação.
Nos revestimentos cerâmicos, a Dexco reestrutura a operação com uma capacidade menor, produtos de maior valor agregado e maior controle de custos. As medidas elevaram as margens brutas de aproximadamente 10% para uma faixa entre 25% e 30%.
No longo prazo, a companhia vê potencial para alcançar margem bruta de 40% na divisão.
A dívida líquida da Dexco está em aproximadamente R$ 5,1 bilhões. A administração pretende reduzir esse valor para cerca de R$ 4,5 bilhões por meio da geração de caixa e de vendas seletivas de ativos.
A meta é alcançar uma dívida próxima de R$ 4 bilhões em 2027. A remuneração dos executivos passou a considerar a redução absoluta da dívida e a geração de caixa, reforçando o compromisso com a desalavancagem.
A liquidez das ações ainda é baixa, com volume médio diário de negociação em torno de R$ 10 milhões. O retorno a índices de mercado permanece improvável em 2026, embora a empresa avalie medidas para aumentar a negociação dos papéis.
Klabin combina eficiência e crescimento
A Klabin enfrenta preços mais baixos para a celulose de fibra curta na China. As cotações, próximas de US$ 560 por tonelada, já se aproximam do custo de produção dos fornecedores de maior custo.
Esse nível pode limitar novas quedas. A administração espera estabilização dos preços à medida que os estoques sejam consumidos. A demanda europeia permanece resiliente, e os volumes do terceiro trimestre evoluem bem.
Para melhorar a realização de preços, a Klabin direciona mais volumes aos mercados maduros.
A celulose fluff continua sendo o destaque do portfólio. A demanda permanece resistente, e o produto apresenta um diferencial de aproximadamente US$ 400 por tonelada em relação à celulose de fibra curta.
O fechamento global de cerca de 1,2 milhão de toneladas de capacidade de celulose de fibra longa em 2026 também contribui para um ambiente mais favorável. Dentro desse total, aproximadamente 300 mil toneladas correspondem à capacidade de fluff.
A Klabin mantém flexibilidade para realocar volumes entre regiões conforme as condições de mercado.
Custos surpreendem positivamente
A disciplina de custos foi um dos principais pontos positivos do segundo trimestre da Klabin. Os custos permaneceram abaixo do limite superior da projeção anual, entre R$ 3,2 mil e R$ 3,3 mil por tonelada, mesmo diante da inflação e de eventos climáticos.
Renegociações com fornecedores ajudaram a compensar a alta dos custos de madeira, influenciada pelo diesel e pelo clima.
O terceiro trimestre, porém, deve concentrar os maiores custos de madeira do ano e uma parada de manutenção. Com isso, o cumprimento da projeção anual dependerá cada vez mais de iniciativas de eficiência e da redução dos preços dos insumos.
O perfil logístico da Klabin, intensivo no uso de contêineres, limita a exposição da companhia às tarifas de frete. O principal contrato foi renegociado antes do aumento das tensões geopolíticas, e apenas a sobretaxa de combustível permanece variável.
A queda do preço do combustível marítimo e do petróleo pode trazer algum alívio nos próximos trimestres. Esse benefício, no entanto, deve ser parcialmente compensado pelos maiores custos de madeira e pela parada de manutenção.
Papel e embalagens sustentam operação
A máquina de papel PM28 está no último ano de expansão e deve atingir capacidade de 450 mil toneladas até o fim de 2026.
Após a homologação do papel-cartão, a participação do produto no mix aumentou de aproximadamente 40% em 2025 para cerca de 60% em 2026. A Klabin, contudo, continuará ajustando a produção de acordo com a rentabilidade de cada produto.
Os fundamentos do papel para embalagens também melhoraram após o fechamento de aproximadamente 4 milhões de toneladas de capacidade nos Estados Unidos. O volume representa cerca de 10% da capacidade instalada de papelão para contêineres no país.
Nesse ambiente mais restrito, produtores norte-americanos e europeus anunciaram aumentos de preços. A Klabin também comunicou reajuste de US$ 100 por tonelada nos mercados de exportação a partir de setembro.
As menores vendas externas em relação ao trimestre anterior refletem principalmente o aumento da produção de papel-cartão e a integração com a operação de embalagens, e não uma redução da demanda.
Na divisão de embalagens de papelão ondulado, os volumes do segundo trimestre permaneceram resilientes. A demanda de tabaco e frutas do Sul, que havia sido adiada, deve contribuir para o terceiro trimestre, período sazonalmente mais forte.
Os preços subiram cerca de 4% em relação ao trimestre anterior. A Klabin espera novos reajustes em linha com a projeção de mercado e com a inflação.
A exposição a produtos essenciais e a empresas exportadoras tende a limitar o impacto de uma demanda doméstica mais fraca.
Desalavancagem ganha força
A alavancagem líquida da Klabin caiu para 3,2 vezes, ante 3,9 vezes um ano antes. O indicador se aproxima do intervalo considerado ideal pela administração, entre 2,8 vezes e 3 vezes.
Os investimentos devem recuar de R$ 3,3 bilhões em 2026 para R$ 2,8 bilhões em 2027, após a conclusão da caldeira de recuperação de Monte Alegre. A redução tende a favorecer a geração de caixa livre.
A companhia exige que novos projetos apresentem retorno equivalente ao custo médio de capital mais 4 pontos percentuais. Apesar disso, não espera aprovar novos projetos relevantes nos próximos cinco anos.
Com o avanço da desalavancagem, a administração prefere recompras de ações a um aumento estrutural de dividendos. Na avaliação do J. Safra, a combinação de investimentos menores, redução da dívida e maior geração de caixa pode apoiar uma reavaliação positiva das ações da Klabin.
Perspectivas são distintas
As discussões do J. Safra Basic Materials Day 2026 mostraram que as cinco empresas enfrentam ciclos diferentes, embora compartilhem uma agenda voltada para eficiência operacional e disciplina financeira.
A Aura Minerals concentra esforços na expansão das minas e na preparação de novos projetos. A Vale busca ampliar a produção de cobre e preservar a competitividade no minério de ferro. A Gerdau simplifica o portfólio e aposta em Miguel Burnier para fortalecer os resultados.
A Dexco trabalha na recuperação das margens e na redução da dívida. A Klabin, por sua vez, combina um portfólio diversificado, disciplina de custos e desalavancagem.
Para o investidor, a análise indica que a evolução dos resultados dependerá da execução dos projetos, do comportamento dos preços das commodities e da capacidade de cada empresa de converter ganhos operacionais em geração de caixa.