Investidores costumam combinar duas ações do mesmo setor para capturar diferenças de desempenho entre as empresas. No mercado de recursos naturais, porém, a exposição a uma mesma commodity não garante que os papéis apresentem comportamentos semelhantes. Essa é a principal conclusão de uma análise do Safra sobre estratégias de pares, conhecidas no mercado como pair trades. O estudo avalia as relações entre empresas de mineração, siderurgia, celulose e papel para identificar quais companhias apresentam maior proximidade de risco.
Segundo o banco, a correlação ajuda a medir o quanto duas ações se movimentam de forma semelhante. Já o beta mostra a sensibilidade relativa de cada papel ao mercado. Assim, uma posição com o mesmo valor financeiro em cada ponta pode não representar uma exposição equilibrada.
Mineração tem o grupo mais coeso
As produtoras de cobre continuam formando o grupo mais homogêneo da cobertura do Safra. As correlações em 12 meses variam entre 0,73 e 0,83, apoiadas pela exposição comum ao cobre e a outros metais produzidos em conjunto.
A Vale (VALE3) também se aproximou desse grupo. As correlações da companhia com Ero Copper (ERO), Lundin Mining (LUN), Capstone Copper (CS) e Hudbay Minerals (HBM) subiram para uma faixa entre 0,55 e 0,60, ante um intervalo de 0,44 a 0,55 em cinco anos.
Ao mesmo tempo, a correlação da Vale com a CSN Mineração (CMIN3) caiu para 0,57, ante 0,67 no período de cinco anos.
Na avaliação do Safra, esse movimento coincide com a maior contribuição da Vale Base Metals para os resultados da Vale. A mudança aproxima o comportamento da mineradora brasileira ao de empresas com maior exposição ao cobre.
A Aura Minerals (AURA33) apresentou a transformação mais expressiva no padrão de negociação. A correlação da companhia com as produtoras de cobre subiu para uma faixa entre 0,56 e 0,67, ante 0,28 a 0,29 em cinco anos.
Com isso, a Aura Minerals se aproximou mais do conjunto amplo de empresas de mineração.
Siderúrgicas perderam sincronia
Gerdau (GGBR4), Usiminas (USIM5) e Companhia Siderúrgica Nacional (CSNA3) continuam formando o grupo mais próximo entre as siderúrgicas brasileiras. Ainda assim, as correlações entre os pares recuaram no último ano.
A relação mais forte permanece entre Usiminas e Companhia Siderúrgica Nacional. A correlação, porém, caiu para 0,70, ante 0,75 em cinco anos.
Também houve redução na correlação da Gerdau com a Usiminas e com a Companhia Siderúrgica Nacional. Os índices recuaram para 0,54 e 0,65, respectivamente, ante 0,67 e 0,71 em cinco anos.
O Safra aponta três possíveis fatores para essa divergência. A Gerdau possui maior exposição ao ciclo do aço nos Estados Unidos. A Usiminas é mais concentrada em aços planos no Brasil. Já a Companhia Siderúrgica Nacional depende cada vez mais da mineração.
A Ternium (TX) permanece mais isolada em relação às siderúrgicas brasileiras. A correlação em 12 meses com os pares nacionais varia entre 0,41 e 0,54.
Esse comportamento pode estar relacionado à maior exposição da Ternium ao México e à Argentina, além da influência de moedas e ciclos regionais do aço.
Suzano e Klabin formam o par mais forte
Entre as empresas de celulose e papel, Suzano (SUZB3) e Klabin (KLBN11) continuam apresentando a relação mais consistente. A correlação em 12 meses subiu para 0,77, ante 0,74 em cinco anos.
A exposição compartilhada aos preços da celulose e ao real ajuda a explicar a proximidade entre as ações. A Klabin, contudo, possui uma atuação mais diversificada, com negócios de papel e embalagens.
A chilena Empresas CMPC seria uma comparável mais direta para a Suzano no segmento de celulose. Aproximadamente 64% do resultado operacional antes de juros, impostos, depreciação e amortização da companhia está ligado à celulose.
Apesar disso, as correlações da Empresas CMPC com Suzano e Klabin permanecem baixas, em 0,30 e 0,31, respectivamente.
Geografia também influencia o risco
Na visão do Safra, o descasamento entre a Empresas CMPC e as companhias brasileiras pode refletir diferenças de geografia, moeda e composição dos negócios.
A companhia também enfrenta pressões específicas nas operações Softys e Biopackaging. Além disso, a maior alavancagem e as incertezas relacionadas ao financiamento de projetos podem influenciar o comportamento da ação.
Esses fatores mostram que a exposição a uma mesma commodity não é suficiente para definir um bom par de ações. A estrutura operacional, o endividamento e os riscos específicos de cada empresa também precisam ser considerados.
Dexco se aproxima da Klabin
A Dexco (DXCO3) se aproximou das empresas brasileiras do setor, especialmente da Klabin. Segundo o Safra, esse movimento parece estar mais relacionado à exposição compartilhada ao mercado doméstico e aos produtos florestais.
A proximidade, portanto, não decorre necessariamente de uma exposição equivalente à celulose. O comportamento das ações também reflete a dinâmica da economia brasileira e a participação dos produtos florestais nos negócios de cada companhia.
Escolha do par exige análise de risco
A análise do Safra mostra que estratégias com duas ações do mesmo setor podem apresentar desequilíbrios quando consideram apenas a exposição às commodities.
Na mineração, as produtoras de cobre formam o grupo mais coeso, enquanto a Vale se aproximou desse conjunto com o aumento da relevância da Vale Base Metals. Na siderurgia, as diferenças entre mercados e produtos reduziram a sincronia entre as ações brasileiras.
Em celulose e papel, Suzano e Klabin permanecem como o par mais consistente. Já a baixa correlação da Empresas CMPC reforça a importância de considerar geografia, moedas, endividamento e riscos operacionais.
Para o Safra, a combinação entre correlação e beta oferece uma avaliação mais completa. A correlação indica quais ações se movimentam de forma mais parecida. O beta, por sua vez, ajuda a verificar se uma estratégia com valores iguais nas duas pontas realmente apresenta exposição equilibrada ao mercado.