Tensão no Oriente Médio redefine perspectivas para ações de petróleo, gás e transportes
Escalada dos preços internacionais do petróleo, combinada a mudanças tributárias no Brasil, altera o balanço de riscos e oportunidades para empresas de exploração, produção e logística
13/03/2026 3 minutos
A valorização do Brent, impulsionada por tensões geopolíticas e ajustes fiscais internos, reposiciona o desempenho relativo das ações ligadas à cadeia de petróleo e transportes no Brasil | Foto: Getty Images
A recente alta do petróleo no mercado internacional, em meio ao recrudescimento das tensões geopolíticas no Oriente Médio, ocorre simultaneamente a uma reconfiguração relevante do arcabouço tributário doméstico sobre combustíveis. A combinação desses fatores impõe impactos assimétricos sobre empresas brasileiras de exploração e produção (E&P), refino e transportes, redesenhando expectativas para ações do setor na Bolsa.
Desde o fim de 2025, o Brent avançou de cerca de US$ 65 para patamares próximos a US$ 80 o barril, uma valorização de aproximadamente 23%, refletindo o aumento do prêmio de risco associado a ataques coordenados contra alvos iranianos e à ameaça de interdição do Estreito de Ormuz — rota estratégica para cerca de 20% do petróleo e gás globais.
No plano doméstico, o governo brasileiro introduziu um pacote de medidas que inclui um imposto sobre exportações de petróleo bruto e, simultaneamente, alívio tributário e subsídios ao diesel.
Ações de petróleo, gás e transportes: guerra e mudança tributária
Novo imposto muda o jogo para exportadoras
O principal vetor de impacto para as empresas de E&P é a criação de um imposto de 12% sobre as exportações de petróleo bruto, com vigência prevista até 31 de dezembro de 2026.
A medida foi desenhada para financiar a eliminação do PIS/Cofins sobre o diesel (R$ 0,32 por litro) e um subsídio de igual valor para produtores e importadores do combustível.
Sob premissas conservadoras — Brent médio de US$ 70 em 2026 e manutenção integral das medidas —, os efeitos variam de forma significativa entre as companhias.
A Petrobras (PETR3 e PETR4) surge como beneficiária líquida do pacote, uma vez que o reajuste estimado de cerca de R$ 0,75 por litro no diesel mais do que compensaria o impacto do imposto sobre exportações.
O ganho líquido estimado alcança US$ 3,4 bilhões no EBITDA, equivalente a 8% da projeção para 2026 ou cerca de 3% do valor de mercado da estatal.
PRIO e Brava concentram pressão negativa
Na outra ponta, empresas com elevada exposição ao mercado externo tendem a sofrer. A PRIO (PRIO3) aparece como a mais penalizada, com redução estimada de US$ 487 milhões no EBITDA ajustado, o que corresponde a 15% da estimativa para 2026 e aproximadamente 5% de seu valor de mercado.
A Brava (BRAV3) também enfrenta impacto relevante, com efeito negativo projetado de R$ 412 milhões, ou 7% do EBITDA ajustado esperado.
Já a PetroReconcavo (RECV3), com perfil menos exposto às exportações, não apresenta impacto direto relevante no cenário-base considerado.
Transportes: custos maiores e efeitos indiretos

Combustível caro pressiona margens e demanda
O avanço sustentado dos preços do petróleo afeta diretamente o setor de transportes, tanto pelo encarecimento do diesel quanto por efeitos secundários, como maior inflação e possível desaceleração do PIB. Esses fatores tendem a pressionar margens operacionais, elevar necessidades de capital de giro e aumentar o custo de capital das companhias.
Entre as empresas mais sensíveis, a JSL (JSLG3) desponta como a mais exposta, dada a dinâmica de repasse do diesel e o risco de defasagens temporais que ampliam a volatilidade das margens.
A Vamos (VAMO3) enfrenta pressão indireta, via deterioração potencial da qualidade de crédito de seus clientes e ciclos mais longos de renovação de frota, apesar da proteção contratual contra o custo direto do combustível.
Exposição moderada e resiliência relativa
A Hidrovias do Brasil (HBSA3) também figura entre as mais afetadas, em função do uso intensivo de diesel marítimo, embora parte desse impacto possa ser mitigada por ganhos de competitividade frente ao transporte rodoviário.
EcoRodovias (ECOR3) e Motiva (MOTV3) apresentam impacto negativo apenas moderado, restrito à elasticidade de tráfego e a aumentos pontuais de capex, sem efeito direto relevante sobre margens, já que o custo do combustível recai sobre os usuários.
Entre as locadoras, Movida (MOVI3) e Localiza (RENT3) mostram maior resiliência, sustentadas por estratégias de precificação disciplinadas e canais eficientes de venda de seminovos, que tendem a neutralizar a desaceleração indireta da demanda.
A Rumo (RAIL3), por sua vez, surge relativamente bem posicionada: embora exposta ao custo do combustível das locomotivas, sua vantagem competitiva frente ao transporte rodoviário tende a se fortalecer em um ambiente de diesel mais caro, favorecendo negociações tarifárias.
Conclusão: alta do petróleo amplia dispersão no mercado
O atual ciclo de valorização do petróleo, reforçado por riscos geopolíticos e ajustes fiscais internos, amplia a dispersão de desempenho entre as ações ligadas à cadeia de energia e transportes.
Enquanto empresas integradas e com maior poder de precificação conseguem capturar ganhos, companhias mais expostas às exportações ou com menor flexibilidade operacional enfrentam pressão relevante sobre resultados e valuation.
Para o investidor, o momento exige análise seletiva e atenção redobrada à estrutura de custos, exposição regulatória e capacidade de repasse de preços.
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